Fotos da Copa do Mundo de 2026 - Fotografando A Tela da TV
Fotografia da Copa sem sair de casa: como transformei a transmissão da TV em uma experiência fotográfica
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| Messi, ajeitando a bola para bater falta |
A fotografia esportiva normalmente está associada a grandes estádios, credenciais, lentes enormes e posições privilegiadas ao lado do campo. Mas a fotógrafa francesa Florence Pernet, conhecida no Instagram como @flo_pernet, mostrou que a criatividade também pode nascer quando o acesso não é possível.
Depois de não conseguir credenciamento para fotografar a Copa do Mundo de 2026, Florence decidiu apontar sua câmera para a televisão e registrar os momentos exibidos durante as transmissões. Em vez de simplesmente reproduzir a imagem da TV, ela trabalhou enquadramentos, movimentos, aproximações, cores e texturas, transformando a tela em parte de uma proposta visual própria. As fotografias ganharam uma estética retrô, viralizaram nas redes sociais e chegaram a ser compartilhadas por jogadores e por perfis ligados a seleções. (Digital Camera World)
A própria fotógrafa reconheceu a importância das equipes responsáveis pelas imagens originais, destacando que seu trabalho só existia graças aos profissionais de transmissão e aos diretores da cobertura ao vivo. Esse crédito é importante porque o ângulo inicial, a iluminação do estádio e o momento transmitido foram produzidos por outras pessoas. A contribuição da fotógrafa aparece na maneira de observar, selecionar, reenquadrar e reinterpretar aquilo que estava sendo exibido. (VEJA)
Uma câmera antiga diante de uma nova possibilidade
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| Foto feita no momento em que Leonel Messi bate falta contra a seleção de Cabo Verde |
Inspirado pela proposta de @flo_pernet, resolvi experimentar o mesmo método durante o jogo entre Argentina e Cabo Verde.
Em vez de utilizar uma câmera moderna, escolhi minha Nikon D90, uma DSLR lançada em outra geração tecnológica, mas que ainda possui capacidade para produzir imagens interessantes quando usada com intenção.
Posicionei-me diante da televisão e comecei a acompanhar a partida não apenas como espectador, mas como fotógrafo. Esperei pelas jogadas, comemorações, expressões e momentos de tensão. Em cada lance, tentei antecipar o instante decisivo exibido na tela.
O desafio era diferente de fotografar dentro de um estádio. A câmera precisava lidar com a luminosidade da televisão, com os pixels da tela, com possíveis reflexos, variações de exposição, perda de definição e diferenças entre a frequência da TV e a velocidade do obturador.
Mesmo assim, o exercício foi bastante interessante. A televisão deixou de ser apenas uma tela e passou a funcionar como uma espécie de cenário luminoso, no qual eu precisava encontrar novas composições.
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| Sidny Cabral |
Fotografar uma transmissão não é apenas apertar o botão
À primeira vista, pode parecer que fotografar a televisão significa somente copiar uma imagem que já existe. Porém, o processo permite algumas decisões criativas.
O fotógrafo pode escolher o instante exato, cortar partes do enquadramento original, destacar uma expressão, aproximar-se dos jogadores, explorar a textura dos pixels ou produzir imagens mais abstratas por meio do movimento e de velocidades mais lentas.
Florence Pernet frequentemente aproxima e reenquadra as cenas, deixando visível a textura da tela ou alterando bastante a aparência da transmissão. Por isso, algumas de suas fotografias se afastam do enquadramento apresentado originalmente na televisão e passam a funcionar como uma interpretação visual daquela imagem. (Digital Camera World)
No meu caso, procurei registrar cenas que transmitissem emoção: o momento de uma finalização, a tensão diante do gol, a concentração dos jogadores e a frustração depois de uma jogada.
A experiência reforçou uma ideia importante: a fotografia não depende apenas do lugar em que estamos, mas da maneira como observamos aquilo que está diante de nós.
Nikon D90 e pós-produção com ChatGPT
As imagens foram produzidas com a Nikon D90 diretamente da transmissão exibida na televisão. Naturalmente, os arquivos apresentavam limitações: ruído, perda de nitidez, interferências da tela, cores muito saturadas e detalhes menos definidos.
Depois dos cliques, utilizei o ChatGPT como ferramenta de tratamento e recriação visual, buscando melhorar a percepção de nitidez, limpar artefatos da televisão, corrigir o enquadramento e criar uma aparência inspirada em filmes fotográficos analógicos de 35 mm.
A inteligência artificial não recupera literalmente todos os detalhes que não foram registrados pelo sensor. Em alguns casos, ela interpreta ou reconstrói visualmente determinadas áreas. Por isso, considero essas imagens como trabalhos experimentais, produzidos a partir de uma fotografia original e posteriormente transformados com assistência de IA.
O objetivo não era apresentar os arquivos como fotografias feitas à beira do campo, mas explorar uma nova linguagem: uma mistura de fotografia, televisão, pós-produção digital e estética analógica.
Entre a fotografia, a apropriação e a experimentação
A proposta também provocou discussões sobre autoria e ética na fotografia. Afinal, a imagem inicial foi criada pelas câmeras e pelos profissionais responsáveis pela transmissão.
Por esse motivo, é importante explicar claramente como o trabalho foi realizado e reconhecer a participação dos cinegrafistas, operadores, diretores e demais profissionais que produziram a cobertura original.
Quando existe transparência, o projeto pode ser compreendido como uma experimentação artística e não como uma tentativa de afirmar que o fotógrafo estava presente no estádio.
No meu trabalho, faço questão de dizer que as fotografias foram feitas da tela da televisão, utilizando uma Nikon D90, e posteriormente tratadas com inteligência artificial. Essa informação não diminui o experimento. Pelo contrário: revela o processo e ajuda o público a compreender a proposta.
Criatividade também nasce das limitações
O trabalho de Florence Pernet mostra como uma limitação pode se transformar em linguagem visual. Sem credenciamento e sem acesso ao estádio, ela encontrou uma maneira diferente de participar fotograficamente da Copa.
Inspirado por sua iniciativa, percebi que não precisava estar ao lado do campo para realizar um exercício de observação, enquadramento e narrativa.
Talvez essas fotografias não substituam o trabalho de um profissional presente no estádio — e nem precisam substituir. Elas pertencem a outra experiência: a tentativa de transformar a transmissão esportiva em matéria-prima para uma interpretação visual.
A Nikon D90, a televisão e o ChatGPT passaram a fazer parte do mesmo processo. Uma câmera de 2008, com uma 70-300mm, uma transmissão ao vivo e uma ferramenta de inteligência artificial trabalhando juntas para criar imagens com aparência de filme fotográfico.
No final, mais importante do que o equipamento foi a vontade de observar de uma maneira diferente.
Fotografado com Nikon D90, diretamente da tela da TV.
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